Powered By Blogger

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Lembranças de Barroca...


Tem tanta gente que eu gostaria de homenagear, de parabenizar pelo trabalho, pela presença que exerce ou exerceu em minha vida. Ou simplesmente agradecer pela existência que provavelmente não só para mim, mas para uma quantidade imensa de almas faz toda a diferença! Na verdade me refiro a pessoas de todas as esferas da vida, que de alguma forma me tocou com sua presença. Por exemplo: Mário Lago foi e é para mim uma dessas pessoas notáveis e inesquecíveis, pelo seu carisma, sua inteligência e o seu inegável talento. Outra dessas criaturas eminentes foi a grande e querida atriz Zilka Salaberry, que não só marcou a minha mas a infância de milhares de pessoas. João Paulo II, que dispensa comentários. Assim, eu poderia por exemplo, desfiar um rosário de nomes famosos, mas iniciarei por citar nomes, que, com certeza para muitos são anônimos, contudo para alguns, por um motivo ou outro, são pedacinhos de suas vidas. Homenagearei um poeta, um sambista, um mecânico, homem do povo.  Postarei duas poesias de João Moreira Sobrinho ( o meu tio Barroca, já desencarnado), pois do muito composto por ele quase tudo se perdeu, pouco restando. Todavia ficaram para nós os parentes a lembrança da alegria e da inteligência desse filho de Caicó e afilhado de Sant’Ana que muito nos proporcionou em alegria e convivência. Essa primeira poesia do tio Barroca é uma homenagem a seu pai José Adelino da Silva, o Deca do Salgadinho e a segunda poesia é uma lembrança lúdica dos seus tempos de criança.

“Sou Deca do Salgadim” – João Moreira Sobrinho (Barroca)
Eu nasci na Vage Redonda, me criei no Sabugi;
Tenho oitenta e quatro anos, vou vivendo por aqui.
Um homem da minha idade a vida já ta no fim,
Quer sabe meu apelido, sou Deca do Salgadim.
Namorei com Dona Antônia, Moreira de Tradição;
Pra casar com a cabocla, me arrisquei cidadão;
O seridó tando cheio, não é brincadeira não.
Houve dezessete filhos, dez morreu inocente;
Sete criou-se lutrido. O mais velho era José;
O filho amigo é falecido, ficou Eunice e Euclides,
João, Maria e Raimundo. O caçula é Erivan,
Solteiro e anda no mundo.
Moro hoje mais Antônia, no palácio da velhice;
E nesse disse me disse, só falamos do passado,
Das alegrias de pobre, nos já tamos superado.
Todos meus cabelos brancos, foi o tempo que botou,
Quando a morte me abraçar, foi Jesus que ordenou;
Deixo adeus pro Seridó, peço perdão para mim;
Já disse meu apelido: “Sou Deca do Salgadim”
“Quando eu moleque pequeno” – João Moreira Sobrinho (Barroca)
Seu moço, meu Caicó; quando eu moleque pequeno
Não tinha saneamento, a Luz elétrica era fraca
Nem falavam em calçamento.
Às quatro da madrugada se ouvia um movimento,
Zum, zum de barris e latas, muitas vozes afobadas
Tangendo os pobres jumentos.
Longo, Zé de Catarina, Manoel Araújo e meu Pai
O resto dos companheiros ficava nesse entra e sai,
Botando água pras casas de quem podia pagar;
Uns a troca de legumes, pois tão danada era a fome
O jeito era trabalhar.
O senhor já ouviu falar no herói João de Ananias?
Pois bem, eu vou lhe contar:
Era um tirador de pedra, era limpador de fossas,
Das casas desse lugar. Matou onça de mentira,
Quis ser profeta sem ser, famoso em comer “quaiáda”,
Jogou vinte e cinco bicho, perdeu sem saber porquê.
As parteiras nesse tempo, Dona Justa, Mãe Candinha,
Comadre Antônia Moreira, outras velhas da ribeira
E a saudosa Mãe Quininha.
Era assim meu Caicó, mas se vivia contente
Muitas Senhoras honradas e homens inteligentes.
Pelo menos Zé do Padre, Foi dentista, era barbeiro,
Amolador de tesoura, Sacristão e carpinteiro;
 me falou diversas vezes que era bom enfermeiro.
O velho João fogueteiro, fazia traque e mijão;
Busca pé e estrelinha, pra se soltar na fogueira
De São Pedro e São João.
Quando terminava o mês, descansava uma semana,
Prá fazer fogos de vistas, Prás novenas de Santana.
No meu tempo de moleque, veja só a brincadeira
Pião, rabugi e soldados, armados de balieira;
Me apela seu Juiz, siribitana e biloca,
Nos pés de Tamarineira.
Agora tudo é moderno, hoje só se fala em carro,
Em rádio e televisor, mulher descansa sem dor;
Ninguém lembra mais de nada, quem sabe é o computador,
Triste do pai de família que, que não tem o filho doutor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário